Despejam qualquer um!

Nas grandes cidades de Portugal alastra uma epidemia entre as pessoas mais velhas que as habitam. As pessoas mais velhas sofrem de mais uma doença. É uma enfermidade sem tratamento. Não há medicamentos inovadores que lhe façam frente. As pessoas têm ouvido falar em nova legislação que as protegerá. A doença vai alastrando e os doentes  sofrem em silêncio e vão desaparecendo. Vão-se afastando do centro da epidemia. Hoje ouvi uma pessoa contaminada. Aqui fica o seu queixume elegante e triste, mas sem choro. Ela falava com uma quase desconhecida, como se fosse com os seus botões. Vou citá-la de cor.

“Amanhã vou embora. Hoje bateram à minha porta dois jovens. Falavam em português de estrangeiros. Eles entraram. Foram ver a minha casa. A minha casa alugada que eles compraram. Disseram-me que vão fazer umas grandes obras. Eu esperava-os. A minha senhoria tinha-me avisado. Sempre vivi em casas minhas. Quando me divorciei fiquei com uma casa, mas, por coisas da vida, tive de a vender. Passei a alugar. Desde então, tenho vivido na zona de Belém. Ali tenho feito a minha vida. A igreja está ali ao lado. O meu dinheiro tem chegado para as despesas. Mas agora tenho de ir embora desta que é a minha terra desde muito jovem. Vou viver para longe. Aqui não há casa que eu possa pagar. Hoje estou aqui para me despedir. Vou embora. Não tenho casa onde viver”.

Gostava de poder reproduzir integralmente a conversa daquela senhora. E também gostava de reproduzir o tom da sua voz. Ela falava elegantemente sem tremores. Sem lágrimas. Ela falava como se estivesse a contar uma história ligeira que lhe tivesse acontecido há muito tempo. Não sei como se aguenta. Como consegue mostrar tranquilidade. Eu tenho o coração partido. Não sei o seu nome, mas conheço-a. Não posso escrever de onde porque ela tem direito à sua privacidade. É uma afronta!

Esta mulher foi apanhada pela epidemia da venda das casas, em Lisboa, por gente que nunca será velha e, também, nunca lhe faltará dinheiro. Isto é mesmo uma doença contagiosa que alastra e apanha os mais velhos, os mais frágeis, os mais necessitados.

cleardot

Tanta Lisboa…

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑