Ainda se comemoram os 50 anos do 25 de abril de 1974? Sim, mas que pergunta é essa? Já sei que alguém me dirá assim. É que começo a ver gente a querer o regresso daquilo que nem imagina o que foi. E preocupo-me, mas vou esquecer esses que, tenho fé, “não vingarão”, e conto uma história em homenagem a uma família que resistiu aos desmandos de gente que nem humana era. Era uma vez…
A família vivia junto à aldeia onde as portas, como a sua, estavam sempre abertas ou só presas nas aldrabas. É possível que por lá as pessoas fossem todas honestas, mas o que é real é que das portas para dentro não havia nada para cobiçar. Mas também havia nas redondezas portas fechadas a “sete chaves”, que guardavam bens materiais preciosos, quantas vezes acumulados à custa do trabalho daqueles que só eram donos dos caminhos que percorriam e do ar que respiravam. Embora estes, os pobres, possuíssem um bem maior – as suas preciosas famílias – como era o caso daquele casal que enriquecia na mesma proporção em que o número dos seus filhos aumentava.
Contra as estatísticas que enunciavam a impossibilidade de todos sobreviverem e crescerem de boa saúde, livres de acidentes e das rasteiras da vida dura, a riqueza manteve-se intacta. Eles cresceram saudáveis, inteligentes, amigos uns dos outros, adorados pelos pais que eram os deuses que os protegiam. A vida era difícil, os subsídios sociais, poucos, das então caixas de previdência, não os contemplavam, mas a família constituía uma muralha que a todos protegia e que angariava os bens essenciais para viverem com dignidade e felizes. Apesar da proteção que todos sentiam, entre eles, durante muitos anos, cresceram e acumularam-se muitas preocupações.
A guerra que levava os amigos e as perseguições aos mais corajosos dos descontentes com o regime ensombravam a vida de todos. Mais do que tudo, a possibilidade de um da família não escapar à ida à tropa tirava-lhes o sono. Era um pavor quando ouviam, baixinho, que do sítio tal um dado jovem não voltaria e, então, todos morriam um pouco de tristeza, mas só dentro da família restrita se falava um pouco mais dos jovens amigos que perdiam a vida, mesmo assim os soluços ficavam presos nas gargantas, porque se sabia, que apesar das prisões e dos mortos, na aldeia, dizia-se, havia quem se vendesse, a troco nem se sabia de quê, e criasse as condições para o pior do regime rondar as casas e a vida das pessoas. Apesar disto tudo, a Liberdade um dia chegou.
Quando no 25 de abril de 1974 se abriram as portas pesadas da ditadura, presas em gonzos enferrujados por um bafo velho de 48 anos, a família festejou, respirou e impregnou-se do aroma da Liberdade. Então, todos saudaram os obreiros de tamanha façanha. O tempo correu, nos primeiros anos em euforia, depois suavemente, embora com uns sobressaltos que a Democracia aplanou.
Foi assim que eles cresceram, medraram e partiram. Fecharam aquela porta que sempre tinha estado aberta. Trabalharam, trabalharam, estudaram e progrediram. Hoje, contra todas as previsões, não divergem. Em homenagem aos pais que foram os obreiros da sua união, e em sua própria honra, todos saúdam a Democracia e quem lhe abriu as portas.
Esta história evoluiu e, embora tenha perdido algum do seu brilho com as perdas dos pais e do irmão que se juntou à família mais tarde, continua a ser bonita. Hoje são muitos mais (…). Era uma vez os filhos da revolução e os seus filhos.

Imagem: Desobrigado.com (captada do livro As Palavras da Revolução, editora Mil Dias).
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