Os invisíveis voltam a casa

Talvez a Comunicação Social possa dar voz a quem já não sabe que voltas pode dar, para não acabar sem abrigo

Vire-se, também, para os outros, os silenciosos, que estão a perder a dignidade ficando sem teto, sem abrigo. Os que se sentem invisíveis, esquecidos pelos poderes indignos que os governam, que nos governam.

É difícil, eu sei, não se aproveitar as notícias fáceis, que prendem grandes audiências, como hoje as televisões gostam. Insistem no mesmo assunto dias inteiros e prendem as pessoas aos ecrãs.

Sim, é verdade, gostava que fizessem um esforço, que fossem um pouco mais além do que vos é oferecido.  Que falassem dos problemas que afetam os portugueses e todos aqueles que vivem em Portugal. Para começar, talvez se possam dedicar à falta de habitação. Aos preços exorbitantes que são pedidos pelas rendas de casa.

Então, senhores responsáveis pelas redações das televisões, das rádios, dos jornais elejam um tema por dia e tratem aprofundadamente esse assunto. Vejam que as vidas das pessoas em Portugal estão a ficar cada vez mais difíceis. Têm empregos, trabalham e recebem os ordenados (muitos de miséria, é certo) mas trabalham e passam tantas dificuldades. Sugiro, sim, que comecem pela habitação ou, melhor dizendo, pela falta de habitação. Levem o tema a sério. Passem um dia inteiro com o mesmo tema e, passados uns dias, voltem a ele. Há tanta noticia para publicar. Talvez a Comunicação Social possa dar voz a quem já não sabe que voltas pode dar, para não acabar sem abrigo.

Sim, falem da habitação que os portugueses deviam ter e não têm e, ainda, da habitação que os portugueses tinham e perderam.

Falem sobre o sofrimento de quem vê aproximar-se a data limite para pagar a renda de casa e o dinheiro não é suficiente. Noticiem sobre as pessoas que recorrem a empréstimos para não caírem logo na rua e, depois, ficam em situações ainda piores.

Perguntem aos governantes porque não existem soluções para as pessoas continuarem a viver com a dignidade a que todos os seres humanos têm direito. Perguntem aos governantes se já olharam para as caras de desespero de quem está prestes a perder o seu lar.

Eu sei que é fácil reproduzir os discursos de quem “malha” nos imigrantes diariamente e vos atrai com o trabalhinho feito, é só esticar o braço com o microfone e a reportagem está no ar. Mas é isto a que chamam jornalismo? Isto parece ser uma fonte de votos fáceis de obter e a comunicação social vai dando um jeito. Fazem reportagens contínuas do derrube de barracas. Lá está dias a fio, sem nada acrescentar ao que esteve no ar no dia anterior.

Senhores, talvez se possam virar, também, para os outros, os silenciosos, que estão a perder a dignidade ficando sem teto, sem abrigo. Os que se sentem invisíveis, esquecidos pelos poderes indignos que os governam, que nos governam.

Tornem estas pessoas seres apelativos para abrir noticiários. Eles merecem. Eles têm empregos. Eles trabalham. Eles recebem ordenados (quase sempre curtos, é certo). Mas eles descontam para a Segurança Social e para o IRS. Eles pagam IVA, eles pagam portagens nas auto-estradas (os que conseguem comprar e manter um carro). Eles precisam de ficar visíveis.

Sobre estes, os esquecidos, os que não abrem noticiários, conto dois casos que uma amiga minha me descreveu, claro que não os vou identificar, não os quero humilhar mais, mas são dois jovens casais que foram criados pelos pais no prédio onde vive a minha amiga. Lá cresceram, lá se fizeram homens, de lá saíram casados, com empregos que continuam a manter. Ambos os casais estão empregados, ambos têm filhos, ambos foram sendo notificados pelos senhorios à medida que os contratos de arrendamento se iam aproximando do termo.

Então aconteceu o impensável, pois as rendas que pagavam não estavam congeladas, eles têm menos de quarenta anos, mesmo assim os senhorios queriam mais dinheiro, muito mais (estão no seu direito, mas esse direito devia ter alguns limites, legais e também morais). O valor exorbitante que lhes foi notificado, para novos contratos, era-lhes impossível pagar.

Eles bem procuraram outras soluções, outras habitações compatíveis com os ordenados dos casais. Não encontraram. Vejam bem, os quatro adultos têm empregos, recebem os seus ordenados, descontam para a Segurança Social e também para o IRS, mas não conseguem pagar uma renda de casa, alimentar as famílias, criar os filhos, que ambos têm. Não conseguiram pagar o valor das rendas que lhes foi pedido. Ficaram sem habitação. Os seus lares desapareceram.

“E agora? O que vamos fazer?” martirizaram-se eles. “Os nossos pais, ainda temos os nossos pais. Vamos recorrer a eles, mais uma vez, mas agora é mais duro. Onde fica a nossa independência? E a independência dos nossos pais. As casas deles são muito pequenas, serviram quando éramos crianças, mas agora entramos mais três. Que situação miserável”.

Mas tinha de ser, eles não tinham outra alternativa, só os pais lhes podiam dar abrigo. E assim foi. Humilhados, envergonhados, bateram à porta dos pais, que os receberam. Claro que lhes deram guarida.

Um dos casais e o filho foram para a casa dos pais dele. Uma casa pequena, onde ele cresceu com uma irmã, que ainda lá continua, porque é mais nova e nem conseguiu arrendar a primeira casa, foi ficando. Agora aquela pequena casa alberga mais três pessoas, onde uma mãe doente se sobrecarrega, perde privacidade e onde o jovem casal e o filho perdem a dignidade.

Ao outro casal, ele nasceu e cresceu no mesmo prédio, ainda lhe aconteceu pior. A casa dos pais dele é mais pequena, não havia espaço para o casal e para o filho. Separaram-se, quando viviam felizes. Ele ficou na casa dos pais dele e ela foi para a casa dos seus pais. “E o filho?” O filho ora fica com o pai, ora fica com a mãe, tal e qual como se tivesse havido um divórcio.

Ora vejam só estes dois exemplos, porque não se fala nestas situações, porque não há soluções? “Sim, claro, é culpa dos imigrantes”, já sei. “Eles têm as costas largas”.


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