À minha família, aos meus amigos e a todas as pessoas em geral desejo um lindo Natal. a minha singela árvore de Natal é para todos nós.
A este propósito, conto uma história…
Ele era pequenino, mesmo muito pequenino e eu tive dificuldade em entender se o meu ato, de trazê-lo comigo, era legítimo[1]. No entanto, arrisquei. Ele estava ao lado de muitos outros que por ali estavam espalhados. Possivelmente o vento que abanou fortemente as árvores ajudou as sementes a voar e a espalharem-se pelo terreno. Eram muitos, mesmo muitos e eu só tive de escolher o que me pareceu menos resistente e mais aprumadinho. Agarrei-o bem junto à terra, dei-lhe um pequeno puxão e ouvi o estalar das suas jovens raízes. Ainda lhe disse baixinho: “desculpa-me, mas vais comigo, até porque agora já não te posso deixar aqui”. E assim aconteceu.
Corriam os primeiros meses da Covid-19, esta doença tão assustadora nos primeiros tempos e, também, tão devastadora para algumas famílias. A mim “enfiou-me” em casa dias a fio, como aconteceu com muitas outras pessoas, mas só me deixou doente, muito doente, uns meses mais tarde. A Covid-19 aproveitou para me roubar um Natal, que quero ver acrescentado àqueles que conto viver, porque aquele não contou.
Sei que não conto qualquer novidade, mas deixem-me relembrar que sair de casa, mesmo só e para caminhar um pouco, era uma grande transgressão (como constava das normas implementadas pelo Governo de então). Foi o tempo em que como quando eu era criança e tinha de sair à rua de noite, se via uma pessoa de um dos lados da estrada, por onde eu caminhava, passava rapidamente para o outro lado. Com o alastrar da Covid-19 passei a repetir a estratégia de então, nos meus”passeios” quase clandestinos. Mudava de passeio sempre que outro ser humano “ameaçava” cruzar-se comigo. Por vezes era a outra pessoa que tomava a iniciativa de se afastar.
Todos tínhamos medo uns dos outros. Hoje parece-me que ficámos todos um pouco mais ridículos, mas, mesmo assim, ainda sinto que foi um tempo de solidariedade. Na minha família, alguns formaram “grupinhos” de dois e foram cantar os parabéns da rua para a janela, a uma de nós que fez anos nos dias de maior confinamento, e foi lindo. Espero que seja uma boa recordação que ela guarde para a vida.
Desde que se espalhou esta doença terrível eu suspirei pelas vacinas, que, felizmente, chegaram rápido, embora não a tempo de pouparem as vidas que foram perdidas enquanto os cientistas trabalhavam dando o melhor do seu saber. Um bem-haja à ciência que, por vezes, até parece que faz milagres.
Apesar das notícias animadoras sobre o avanço da ciência, eu perdia a capacidade de me aguentar mais tempo presa em casa, por isso aconteceram as minhas transgressões. Valeu-me o então Primeiro-Ministro, dr. António Costa, e a então Diretora-Geral da Saúde, dra. Graça Fonseca, que foram, aos poucos, dizendo às pessoas que podiam sair um pouco de casa. Podiam dar pequenos passeios, desde que fossem respeitadas as regras quanto ao número de pessoas juntas, quanto ao respeito pelo uso de máscaras, quanto à higienização das mãos, quanto ao tossir para a dobra do braço e mais cautelas deste género. As pessoas foram respeitando tudo o que devia ser respeitado. Aos poucos, começaram a passear nos parques. As crianças começaram a ser vistas nas ruas. E eu? Claro que eu comecei a sair mais um pouco, mas assim já com a autorização implícita das autoridades.
Depois vieram as vacinas. Nem me questionei se queria ser vacinada. Claro que queria. Claro que achava que todos deviam dizer sim às vacinas, até em homenagem àqueles que perderam as vidas por não terem as vacinas atempadamente. Queria as minhas pessoas todas em segurança. Queria toda a gente livre daquela doença. Agora que escrevo, mais uma vez, sobre este assunto, parece-me que estou “a anos luz” daquele tempo, que agora recordo a propósito do Natal de 2025, que nos está quase a bater à porta. Para ser mais verdadeira, recordei-me da Covid-19, aquela doença terrível, na altura sem vacinas, que roubou tantas vidas por esse Mundo fora; a propósito da arvorezinha que desviei do seu lugar no campo e a transferi para um vaso na minha varanda, onde tem vivido estes anos. Nem imaginam como ela cresceu até hoje.
A mim parece-me que ele me agradece, ele sim, porque se trata de um pinheiro, todos os dias o sinto grato pelo carinho que lhe tenho dispensado e este ano, este Natal do ano 2025, vamos agradecer-nos (eu a ele e ele a mim. Eu vou enfeitá-lo o melhor que eu conseguir e ele vai agradecer-me resistindo bem se houver um pouco de peso a mais nos seus ainda frágeis ramos).
Mesmo assim, creio que se vai aguentar bem. Eu vou ser muito cuidadosa: vou deixá-lo continuar lá fora; vou pendurar umas bolas coloridas (grandes e leves); vou atar-lhe uns laços de fitas coloridas; termino os enfeites com uma estrela no ponto mais alto do meu pinheiro.
Para compensar a minha “transgressão” de há uns anos, a minha árvore de Natal é dedicada à minha família, aos meus amigos, aos meus vizinhos e a todos aqueles que gostavam de ter assim uma árvore de Natal, mesmo singela como a minha, e não a têm, porque o Mundo está, cada vez mais, um lugar de gente cruel. Mesmo assim, desejo a todos o mais lindo Natal de sempre.

[1] Uns dias mais tarde, falei com um amigo sobre esta minha inquietação e ele, como amigo que é, sossegou-me dizendo-me: “sabes, amiga, todas as pequenas arvorezinhas que nascem assim nas florestas nacionais, todos anos são arrancadas quando as florestas precisam de ser limpas, para protegerem as árvores adultas em caso de incêndios”. Eu fiquei-lhe muito grata.
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