Sempre que o vejo, assim, na rua sozinho, tão frágil, parecendo-me que carrega uma tristeza sem fim, sobre as suas pernas frágeis, apetece-me perguntar-lhe se lhe posso dar um abraço. Ainda não tive coragem. Tenho tido receio de que ele se sinta humilhado e isso eu não quero. Um dia destes, ainda ultrapasso este meu medo de lhe estar a roubar a dignidade. Tenho de me decidir.
Há dois dias vi-o, mais uma vez, dobrado sobre si mesmo, com os olhos postos no chão – talvez para não tropeçar na calçada, talvez porque o tempo que já passou lhe pese muito sobre os ombros, talvez porque nem lhe apeteça olhar para as caras de quem caminha com desenvoltura e o ignora.
Não conheço uma cura para esta solidão. Se ainda não lhe dirigi a palavra como posso eu saber se ele não é um resistente que consegue viver bem com as suas fragilidades? A única certeza que tenho sempre que o vejo, cada dia um pouco mais dobrado do que no dia anterior e mesmo assim, não se amparando numa bengala, é que talvez faça parte do seu modo de resistir, a recusa de amparo.
A última vez o vi, tinha chovido havia pouco tempo, naquele momento o sol tinha voltado, ele carregava o chapéu de chuva fechado, mas segurava-o pelo meio. Não se encostava a ele como, muitas vezes, fazem as pessoas que têm dificuldade em caminhar.
Pensando bem, aquele homem, aquele senhor, mesmo dobrado, mostra a sua dignidade. Ainda não se dá por vencido. Não sei se algum dia vou ter coragem de lhe oferecer um abraço. Tenho de avaliar bem a sua postura e, então, vou perceber se ele precisa de um pouco do meu carinho. Eu conheço-o há algum tempo, não sei se ele já deu por mim no passeio, um dia destes cumprimento-o e aguardo, já não vai ser a primeira vez que o faço, da anterior não obtive resposta, talvez não me tenha ouvido ou tenha pensado que o cumprimento era para outra pessoa. Possivelmente julga-se invisível, pois é isto que acontece, muitas vezes, aos mais velhos.

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