Matar saudades

 
O mês de setembro estava a findar, mas o verão prometia ir ficando enquanto o outono estivesse distraído.

Ele não pesca para matar a fome, no entanto ele pesca para se fortalecer matando saudades. Ele é um português que emigrou com os seus pais.

Eles regressam aqui, ao seu país, à sua terra, à sua praia sempre que a vida lá fora lhes permite. Vi-os chegar, pousar os sacos e ficarem de pé a olhar demoradamente o mar.

O mês de setembro estava a findar, mas o verão prometia ir ficando enquanto o outono estivesse distraído. Quando eles desceram a rampa a caminho da praia o sol aquecia. Eu distraía-me com o movimento das pessoas. Quando os vi já a caminhar descalços na areia, bem vestidos como os portugueses que andam lá por fora gostam de se apresentar quando regressam a casa, pensei: “são emigrantes portugueses”.

Baixei a cabeça e continuei a ler o meu livro (A amiga Genial – um dia destes escrevo sobre este livro), quando comecei a sentir frio, levantei-me para caminhar pela areia ao longo da praia. Olhei para o mar. Lá estava ele, o mais novo, equipado para mergulho, mas pescava no cimo do rochedo. O mar brincava lá em baixo. As ondas começavam a bater com mais força. O outono mostrava-se.

Ele lá estava à espera que algum peixe se deixasse enganar ou, simplesmente, estava ali para se sentir feliz outra vez no seu rochedo, na sua praia, na sua terra. Continuei a caminhar. Desejei-lhe saúde e sorte e que a vida lá por onde ele anda não o enleie no tumulto que muitos enfrentam aqui neste nosso país.  


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