Não houve camisa lavada nem cadeira na Europa

AS PESSOAS…

Podia ter ajudado? Não, não podia. Nós gostamos um pouquinho de choro e condoemo-nos muito com o sofrimento alheio, mas não fazemos cruzes em boletins de voto porque houve uma desgraça.

Aconteceu-me não gostar de ver. Ficar mesmo incomodada. Sentir que houve desumanidade dos serviços de saúde, do partido político que o tinha como cabeça-de-lista, da família, dos amigos ou de todos. Ele sofreu um acidente, grave, de automóvel.  Era conduzido pelo líder do partido que foi primeiro-ministro e, por isso, este, recebeu tratamento condicente.

Ele é Paulo Sande, cabeça-de-lista, do partido Aliança. Foi hospitalizado e teve alta no mesmo dia. Saiu com a mesma camisa branca ensanguentada com que entrou. Não houve quem lhe emprestasse uma camisa lavada. Os holofotes estavam sobre ele. O líder do partido, esse, saiu sorrateiramenteno dia seguinte.

Ontem, quando vi Paulo Sande, na noite da derrota, senti um estremecimento. Relembrei a sua imagem à saída do hospital, em Coimbra.

Ainda pensei que fosse eleito, mas não. Não tem cadeira na Europa.

 

 

 

 

Ela diz que haverá arroz. O pai foi embora

HISTÓRIAS DE PESSOAS

 

Vi na RTP 3, no programa Zoom África (2019/04/26), a história começa ao minuto nono, é sobre uma mulher que aos 39 anos já foi mãe de 44 filhos. Vive no Uganda, um país de África.

Casou aos 12 anos (dizendo corretamente, houve quem a casasse), aos 13 nasceram os seus primeiros dois filhos, gémios. Depois vieram muitos outros. De um em um ou em grupos de dois, de três, de quatro e até de cinco. Chegou já ao número  44. Seis morreram de problemas vários. 38 estão vivos.

 

Ela agora vive sozinha a fazer pela sua vida e pelas vidas dos seus filhos. Quando nasceram os últimos gémeos o pai foi embora. Agora ela diz que pelo menos arroz conseguirá arranjar para toda a família.

Tem sido apresentada como símbolo de fertilidade, mas vejam-se os outros ângulos desta história. É uma linda família, é verdade, mas a comida é fraca, falta roupa e  muitos pés andam descalços.

Oxalá que o circo mediático que se montou à sua volta a ajude a alimentar e a calçar os filhos.

Nota: se gostar de ver o programa, pode usar o link que está abaixo.

https://www.rtp.pt/play/p5331/e403486/zoom-africa

 

 

 

 

 

 

Umas portas sempre abertas e outras a encarcerar a Democracia e a Liberdade

AS MINHAS PESSOAS

As portas estavam abertas ou só firmes nas aldrabas. Porque toda a gente era honesta ou porque das portas para dentro não havia nada a cobiçar. Enquanto outras portas, que eram fechadas e guardadas pela prepotência, encarceravam a democracia e a liberdade.

Havia, ainda, outras fechadas a sete chaves. Estas guardavam bens preciosos e davam segurança às gentes que desconfiavam daqueles que só eram donos das estradas e do ar que respiravam. Ah! Sim, estes possuíam as suas preciosas famílias, como era o caso daquele casal que iam enriquecendo na mesma proporção em que o número de filhos aumentava.

Contra as estatísticas, que enunciavam a impossibilidade de todos sobreviverem e crescerem de boa saúde, livres de acidentes e das rasteiras da vida, a riqueza manteve-se intacta. Eles cresceram saudáveis, inteligentes, amigos uns dos outros, adorados pelos pais que eram os deuses deles.

O caminho estava cheio de pedras difíceis de transpor, mas a família era uma muralha. A guerra que levava os amigos, as perseguições aos mais corajosos dos descontentes, a possibilidade de um da família não escapar à ida à guerra, tiravam-lhes o sono. Era um pavor quando ouviam, baixinho, que no sítio tal um dado jovem não voltaria. Todos morriam um pouco de tristeza.

Mesmo assim, na aldeia, havia quem se vendesse a troco nem se sabia de quê e criasse condições para o pior do regime rondar as casas e a vida das pessoas.

Quando Abril abriu as portas pesadas, de gonzos enferrujados por um bafo velho de 48 anos, a família festejou, respirou e impregnou-se do aroma da liberdade. Todos saudaram os obreiros de tamanha façanha. O tempo correu. A liberdade cimentou-se, apesar dos buracos que foram sendo abertos no caminho.

Então, eles cresceram, medraram e partiram. Fecharam aquela porta que sempre tinha estado aberta. Trabalharam, trabalharam. Estudaram e progrediram. Hoje, contra todas as previsões, não divergem. Em homenagem aos pais e em sua própria honra, todos saúdam a Democracia e quem lhe abriu as portas.

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