Umas portas sempre abertas e outras a encarcerar a Democracia e a Liberdade

AS MINHAS PESSOAS

As portas estavam abertas ou só firmes nas aldrabas. Porque toda a gente era honesta ou porque das portas para dentro não havia nada a cobiçar. Enquanto outras portas, que eram fechadas e guardadas pela prepotência, encarceravam a democracia e a liberdade.

Havia, ainda, outras fechadas a sete chaves. Estas guardavam bens preciosos e davam segurança às gentes que desconfiavam daqueles que só eram donos das estradas e do ar que respiravam. Ah! Sim, estes possuíam as suas preciosas famílias, como era o caso daquele casal que iam enriquecendo na mesma proporção em que o número de filhos aumentava.

Contra as estatísticas, que enunciavam a impossibilidade de todos sobreviverem e crescerem de boa saúde, livres de acidentes e das rasteiras da vida, a riqueza manteve-se intacta. Eles cresceram saudáveis, inteligentes, amigos uns dos outros, adorados pelos pais que eram os deuses deles.

O caminho estava cheio de pedras difíceis de transpor, mas a família era uma muralha. A guerra que levava os amigos, as perseguições aos mais corajosos dos descontentes, a possibilidade de um da família não escapar à ida à guerra, tiravam-lhes o sono. Era um pavor quando ouviam, baixinho, que no sítio tal um dado jovem não voltaria. Todos morriam um pouco de tristeza.

Mesmo assim, na aldeia, havia quem se vendesse a troco nem se sabia de quê e criasse condições para o pior do regime rondar as casas e a vida das pessoas.

Quando Abril abriu as portas pesadas, de gonzos enferrujados por um bafo velho de 48 anos, a família festejou, respirou e impregnou-se do aroma da liberdade. Todos saudaram os obreiros de tamanha façanha. O tempo correu. A liberdade cimentou-se, apesar dos buracos que foram sendo abertos no caminho.

Então, eles cresceram, medraram e partiram. Fecharam aquela porta que sempre tinha estado aberta. Trabalharam, trabalharam. Estudaram e progrediram. Hoje, contra todas as previsões, não divergem. Em homenagem aos pais e em sua própria honra, todos saúdam a Democracia e quem lhe abriu as portas.

2 thoughts on “Umas portas sempre abertas e outras a encarcerar a Democracia e a Liberdade

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  1. Gosto da tua escrita e do teu Blogue Mariana. Este texto relata vivências de antigamente nas nossas aldeias e a mudança e o progresso. Mas toda a moeda tem verso e reverso ou como se diz “não há bela sem senão”….Hoje nas nossas aldeias, há mais portas fechadas do que abertas, portões enferrujados, casas abandonadas. Já não há famílias numerosas, as terras estão por amanhar. Crescem as culturas intensivas que são as que dão lucro e muitos pesticidas à mistura para rentabilizar. Já não há o medo de falar abertamente sobre politica ou outros assuntos. Os receios são outros, que nos fazem agora colocar grades nas janelas e se possível, portas blindadas. As crianças não brincam em liberdade nas ruas pois o perigo espreita e já não se confia nos vizinhos e às vezes nem na própria família. Os jovens refugiam-se nas imagens virtuais e absorvem tudo o que os écrans lhes mostram, seja verdade ou mentira e já nos é difícil fazer essa distinção. A liberdade de opinar até nas redes sociais, leva a um exagero de linguagem e de troca de ofensas que chega a ser deprimente e afasta quem esteja de cabeça limpa e espírito livre de partidarismos ou clubismos (o que parece já serem poucos). Há mais instrução agora. Mas a educação e o respeito são quase miragens. Uma democracia sem respeito, definha.. Enfim…foi um desabafo, mas tento pensar que dias melhores virão. E afinal… a vida é apenas um intervalo. Abraço.

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