A barragem leva muita água

Em Portugal

Se eu pudesse enchia-as todas até ao gargalo e ainda ficava aqui metade desta água.

Fez ontem vinte anos que a barragem do Alqueva começou a encher. Hoje é um “mar de água” naquele Alentejo. Quem olha dificilmente imagina a quantidade que ali está presa. Ontem, 2022/02/08, pelas 20h e 40m, a RTP apresentou uma reportagem sobre a barragem, que incluía as declarações de um homem que sabe comunicar. É o senhor Nixon, dono da empresa Alqueva Tour.

Ouvi-o explicar a capacidade de armazenamento de água da barragem do Alqueva. O senhor Nixon disse assim: “Se eu pudesse levar água daqui para as seis barragens mais altas do que o Alqueva enchia-as todas até ao gargalo e ainda ficava aqui metade desta água. Assim já conseguem ter uma ideia da sua capacidade”. É verdade, dito assim, dá para imaginar.

Imagem: Desobrigado.com (captada da TV)

Criaram a ilusão e iludiram-se

Olhando um placard que ainda exibe um Rio eufórico, lembrei de uma história que ouvi contar há muitos anos.

Aquele partido político que contavam ganhar as eleições do passado domingo, deixou que os seus filiados enchessem autocarros e “desaguassem” nas grandes cidades, criando a ilusão que com tanta gente ia ganhar. Tamanhas enchentes tinham forçosamente de influenciar o sentido do voto a seu favor. Mas os eleitores já desmontam melhor os truques.

A acrescentar às enchentes, o líder gritava que o seu rival direto estava cansado. Que já lhe tinha entregado os pontos. Que já tinha perdido. Que era mentiroso. Que, ao menos, podia perder com dignidade. Chegou a acreditar que a ilusão era real.

Hoje, olhando para um grande placard que ainda exibe um Rio eufórico, lembrei de uma história que aconteceu em Garvão, no Alentejo, há talvez uns oitenta anos.

Uma moradora da aldeia, que devia estar farta da pasmaceira do dia-a-dia, saiu de casa e pôs-se a gritar: “Caiu um avião na Sardoa, caiu um avião na Sardoa”, (um local afastado do centro). Ouvindo aquela gritaria as outras pessoas saíram de casa e correram para o local do suposto desastre. O centro da aldeia estava quase deserto, toda a gente caminhava na direção indicada. Até que ela, a mulher que se queria divertir um pouco, falou de si para si dizendo: “Não querem ver que caiu mesmo um avião na Sardoa! Vou ver”.

Imagem: Pixabay

Ainda há olivais antigos no Alentejo

Mas eles inçam o Alentejo de culturas intensivas e matam a boa qualidade do azeite e as terras sem dó nem piedade. 

A caminho de Beringel (distrito de Beja) correm em sentido contrário à marcha do meu carro os olivais de cultura intensiva que me sobressaltam pelo mal que fazem à terra, à boa qualidade e ao bom nome do azeite de Portugal. Fui à Cooperativa Agrícola comprar o azeite que durante mais um ano irá temperar os meus cozinhados. 

Quando chego digo ao que vou e logo a seguir, como é meu costume (sempre na esperança que o meu interlocutor não se ofenda), pergunto se as azeitonas continuam a vir dos olivais antigos e, invariavelmente, responde-me que sim. Este ano dei por mim a responder também à minha pergunta dizendo: “ora, deixe lá, enquanto nós gostarmos dele …”, quem me atendia olhou-me fixamente e não me respondeu. Que me perdoe. O azeite, como nos anos anteriores, é mesmo uma delícia. Mas eu vi que Melos e companhia inçam o Alentejo de culturas intensivas e matam a boa qualidade do azeite e as terras sem dó nem piedade.

Imagem: Pixabay (olival antigo)

Já não há alentejanos no Alentejo?

Deu-se reviravolta. Esperemos pela cambalhota. Deve ter sido fácil ampliar as “pequenas” xenofobias e montar umas quantas frases sonantes para gritar nas televisões e nas redes sociais. 

Na noite eleitoral de domingo, enquanto ouvia os resultados pensava: “já não há alentejanos no Alentejo”. Dois dias depois queria manter esse pensamento, mas sei que não é verdade. Os alentejanos continuam na sua terra e são os mesmos que há décadas votavam em sentido contrário. 

Houve quem andasse por lá, como terá feito um pouco por todo o País, a ouvir as conversas das pessoas simples. A escutar os seus anseios e as suas mágoas. Deve-lhe ter sido fácil ampliar as “pequenas” xenofobias e montar umas quantas frases sonantes para gritar nas televisões e nas redes sociais e enganar as pessoas de bem. Deu-se a reviravolta. Esperemos pela cambalhota.

Ampliaram o descontentamento e a indignação dos que trabalharam duramente desde crianças e agora, reformados, recebem os valores mais mínimos dos mínimos. Mesmo assim, muitos destes ainda somam uns complementos socias. 

Ora vejamos: quem grita o que os mais pobres gostam de ouvir, se viesse a ser governo, as pensões mínimas das mínimas ainda seriam muito mais reduzidas. Então os alentejanos só ouviram aquilo de que gostavam e não perceberam que votaram em quem é contra a atribuição de uma parte das suas pensões? Sim, porque, para eles, a gritaria foi feita contra os subsídios, como se estes só fossem atribuídos aos alvos da sua xenofobia. 

Os que lá viveram e os que ainda lá permanecem sabem, que aqueles que chegavam, ficavam uns dias e partiam, sempre foram “pedras nos sapatos dos alentejanos”. Era hábito dizer-se que quando passavam “havia sempre alguma coisa que se lhes agarrava às mãos”. Isto é ancestral, vem das calendas. Isto entranhou-se.

Agora a Segurança Social acode-lhes. Acrescenta-lhes os rendimentos e os que vivem de míseras reformas olham para o lado e sentem-se injustiçados. 

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑