Olhe a coca!

A mulher tinha acabado de estacionar no piso menos três e aguardava o elevador. Dois homens aproximaram-se. Cumprimentaram-na. Um deles, senhor vestido à Ralph Lauren, olhou para ela e disse: “Se eu fosse mulher não andava por aqui sozinha”. Então porquê? Perguntou ela. Ele mostrou-se um pouco atrapalhado. Deve estar habituado a que as mulheres sorriam e fiquem caladas (possivelmente é o que ela usa fazer). Mas, mesmo perturbado, respondeu-lhe: “Sabe isto aqui é muito sozinho e escuro”. Ao que ela disse: “Ah, não tem problema, eu estaciono aqui há anos e nunca me aconteceu nada de mal”. Ele que começou por armar-se em engraçadinho, no momento, já estava a sentir-se desarmado. E lá foi tentando uma justificação: “Eu queria dizer que isto é perigoso para…” (calou-se) e ela ajudou-o dizendo: “Para qualquer pessoa, não é verdade?” Ele, coitado, devia estar a sentir que dali a pouco ela começaria a dizer-lhe que aquela era uma conversa, no mínimo, paternalista que significava que as mulheres são uns seres que é melhor caminharem sempre por sítios com muita gente e muita luz. Os restantes lugares são só para elas se estiverem muito bem acompanhadas por um homem.

Saíram os três no piso zero. O amigo, que não entrou na conversa, ia com um “sorriso na cara”.

Margarida Ferro, gostava que me respondesse, gostou da homenagem?  (congresso do PSD)

ERRÂNCIAS

 

Esta tarde, por volta das 16,30, liguei a TV quando discursava, no congresso do PSD, Nuno Morais Sarmento, estava no ponto onde devia elogiar algumas mulheres. Da forma como iniciava esta parte do discurso julguei que ele se referia às mulheres que trabalham nos bastidores, às funcionárias do partido, que também merecem ser homenageadas.

No início pensei, bonito, parece ser a primeira vez que alguém num congresso partidário faz este agradecimento, mas rapidamente a surpresa agradável se transformou em constrangimento. Só quem viu pode compreender, mas vou tentar mostrar o que senti e porque aquele agradecimento se transformou, a meu ver, em algo confrangedor.

Ora vejam lá o que eu vi e ouvi. Dizia ele (estou a citar de cor): quero aqui homenagear as mulheres do partido, aquelas que estão lá sempre para nos apoiar. Também as muitas que já não estão e porque os rostos têm nomes, quero chamar aqui a Margarida Ferro. Então a Margarida levantou-se, o congresso aplaudiu, e ela dirigiu-se para a zona do púlpito e ali ficou dois passos atrás de Morais Sarmento. Quando eu esperava e, possivelmente, a Margarida também, que ele a chamasse para junto de si no palco, mas isso não aconteceu. Deixou-a ali parada àquela distância dele, julgo que nem para trás olhou. Continuou o discurso mudando de assunto e ela ali ficou perdida, recebeu algumas palmas mais e afastou-se.

Quero perguntar à Margarida Ferro se gostou daquela homenagem.

 

Uma mulher e um homem chocam ao virar da esquina

CRÓNICAS

 

Se vai na rua, se chove, se leva o chapéu aberto, se dobra uma esquina e gosta de fazer curvas apertadas, então é melhor colocar o telemóvel no bolso e adiar a chamada.

Não concorda? Então veja este caso real. Uma mulher estava a trabalhar e saiu um pouco para esticar as pernas, endireitar as costas, tomar um café e comprar alguma coisa para o almoço.

O comércio é um pouco longe. Chove. Ela abre o chapéu, tira o telemóvel do bolso, procura na lista e pressiona um nome. Vai a caminhar, a falar e a ouvir o seu interlocutor. Está quase a chegar à loja. Dobra a última esquina e, em sentido inverso, aparece um homem. Os dois caminham rápido. Vão ao encontro um do outro e chocam violentamente. O passeio está escorregadio e ela cai. O telemóvel salta-lhe da mão com tanta velocidade que se escaqueira atirando peças para longe, algumas delas ficam dentro de uma poça de água barrenta.

O acidente deixou-lhe umas negras nas mãos e levou-lhe o telemóvel. Impossível saber-se quem é o culpado. O colega de embate teve muita pena, não dela, mas do telemóvel.

Uma mulher
Imagem: Desobrigado

Europeias 2019: elas são mesmo escassas em Portugal!

OS MENINOS

Andava a informar-me, sobre o rumo das campanhas partidárias, quando me lembrei de olhar a umas quantas listas de candidatos à eleição para o Parlamento Europeu. Vi uma, vi duas, vi três e, um pouco intrigada, pensei: Tenho de ver as listas todas. E vi. Então reparem no que eu encontrei.

 

 

 

No meio destes senhores todos há ali uma mulher? será possível que este partido não tenha um homem para cabeça-de-lista? para quê destoar?

Eu não quero saber se é homem ou mulher. Vou optar subjetivamente.

 

 

Meninos descalços em tempos de ditadura

OS MENINOS DESCALÇOS

 

Meninos
Imagem: DR (publicada no FB)

Ontem uma amiga publicou esta fotografia no Facebook. Com a devida vénia reproduzo-a aqui, porque me fez recordar uma conversa azeda de uma pessoa saudosa dos tempos que estes meninos viveram.

 

Enquanto tomava o pequeno almoço, no meu café do costume, uma senhora com alguma idade, que desconhece que Lei Fundamental do seu país não permite a difusão de ideias contrárias às liberdades, a falar para todos nós, a propósito de nada, só por lhe apetecer, disse: “Faz cá falta um ditador” … e por aí fora… foi-se esticando. Até que alguém lhe disse que ela não podia dizer o que estava a entoar. Tinha sido melhor que a segunda interveniente não lhe desse atenção, pois acabou por sentir-se maltratada. Ofendida. Deixou o pequeno almoço em cima do balcão e virou as costas.

Aquela mulher que só gosta de liberdade para si, não viu os pés descalços dos meninos da fotografia, e também não viu outros, igualmente necessitados, que não foram guardados em retratos. Ela só viu os pés calçados, supondo que estes eram os seus.

Convido-a, a ela, a olhar bem para esta fotografia e a imaginar-se de pés nus pisando o gelo dos invernos.

 

 

 

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